Peça do mês

Link Interno agosto 2014

agosto 2014

Retrato de Públia Hortênsia de Castro

 

Retrato de figura feminina a meio corpo virada 3/4 à esquerda. Representa Públia Hortênsia de Castro, erudita do Renascimento português, nascida em Vila Viçosa. Traja o hábito monástico dos Agostinhos: vestido preto, com cógula branca cobrindo-lhe a cabeça. Ao pescoço ostenta um rosário. Na mão direita segura cálamo, com a qual escreve, num livro aberto, o seguinte texto: DANTI/MIHI/SAPIE/TIAM/DABO/GLORI/AM/ECCLI/SI (Dando-me sabedoria, dar glória à Igreja). O livro assenta sobre tampo, em cujo rebordo se lê: HORTENCIA D CRASTO. Fundo de cortinado de tecido verde.

Públia Hortênsia de Castro (Vila Viçosa, 1548 - Évora, 1595) foi (como Paula Vicente, Joana da Gama, ou D. Isabel de Castro e Andrade) uma das femmes savantes do humanismo português e a primeira a «orar» em público no século XVI. Era filha de Tomé de Castro e de Branca Alves, sendo como seu irmão Jerónimo de Castro. Na sua terra natal aprendeu as primeiras letras. Depois foi para Évora onde, sob a proteção do Arcebispo D. José de Melo, se matriculou no curso de filosofia da Universidade. Em Évora tomou parte em certames literários diversos, em discussões públicas de carácter científico, tendo ganho fama e notoriedade. Prestou as provas finais de licenciatura no antigo colégio do Espírito Santo, em 1571, que concluiu com brilhantismo. André de Resende, seu mestre, rendeu-se às qualidades da sua discípula e, espantado com a capacidade demonstrada, depressa espalhou a notícia do prodígio por entre os sábios estrangeiros com quem trocava correspondência. Nos círculos culturais de Espanha, França e Itália a novidade causou assombro e despertou o interesse e a curiosidade das mais insignes figuras da época. Em 1574 começa a frequentar o Paço Real de Évora e a erudita academia da infanta D. Maria (1521-1577), de quem era tencionária. Em 1581 recolhe-se no Mosteiro de Nossa Senhora da Graça, em Évora, sem todavia proferir votos monásticos, tendo-lhe na mesma data o rei Filipe II de Espanha atribuído uma pensão vitalícia de quinze mil réis. No mosteiro agostinho viria a falecer em 1595. Da sua obra ficou testemunho o que escreveu em alguns livros de prosa e verso, em cartas escritas em latim e em português, e uns diálogos sobre teologia e filosofia, a que deu o título de Flosculos Theologicales.

Em Portugal e Espanha, como em outros países vizinhos, como a Itália, a ascensão das mulheres na ?República das Letras? iniciou-se na segunda metade do século XV, altura em que as questões de voz e autoria começam, cada vez mais, a ser perspetivadas individualmente. Este período foi caracterizado pela perceção de que as letras tinham uma conotação, não apenas social, mas também económica. Só então as questões de censura literária e propriedade literária vêm à tona, e só então, também, a noção de plágio começa a adquirir o seu sentido moderno em toda a Europa.


Esta ascensão deveu-se a três fatores principais: 1º) o aumento dos vernáculos como línguas literárias, graças, em primeira instância, aos promotores humanistas italianos dos escritores toscanos Dante Alighieri (1265-1321), Giovanni Boccaccio (1313-1375) e Francesco Petrarca (1304-1374); e em Espanha dos humanistas Alfonso de Palência (1424-1492) e António de Lebrija (1441-1522); 2º) o papel da nobreza feminina na promoção de textos vernáculos de autores masculinos e femininos, como forma de contornar a incapacidade de ler latim, o que contribuiu significativamente para a disseminação da alfabetização com objetivos não religiosos; 3º) o advento da imprensa em Segóvia, em 1472, através de Johannes Parix de Heidelberg.

Évora foi um dos centros mais brilhantes da vida intelectual do Renascimento português. Estadia frequente da corte, congregava o favor régio, o mecenato de príncipes e arcebispos, o interesse das instituições religiosas. Aí exercem o seu magistério humanistas como Cataldo, Luís Teixeira, Aires Barbosa, Pedro Nunes, João Vaseu, Clenardo e André de Resende.


Por meados do séc. XVI, este movimento de propósitos reformistas, e mais ou menos de declarada inspiração erasmiana, altera, progressivamente, a sua orientação: o humanismo, por convicção ou imposição, integra-se na reforma católica e veste o hábito do zelo religioso. Évora continua, no entanto, a desempenhar papel de primeiríssimo plano: recorde-se a presença de Luís de Granada, Bartolomeu dos Mártires, Diogo Mendes de Vasconcelos, Jerónimo Osório (o sobrinho), Públia Hortênsia de Castro; e ganha ainda maior relevo com a fundação da Universidade confiada pelo cardeal-infante D. Henrique à Companhia de Jesus. Registe-se a presença desde logo de alguns dos jesuítas mais eminentes: Manuel Alvares, Pedro Perpinhão, Pedro da Fonseca e Cipriano Soares.


Por seu lado, em Vila Viçosa, terra natal da retratada, resplandecia a corte dos Duques de Bragança. A vila tornava-se, logo no tempo de D. Jaime (e, depois, com D. Teodósio e D. João), um verdadeiro alfobre de gramáticos e poetas, de mestres de retórica e oradores como Lourenço de Cáceres, Pedro de Andrade Caminha, Manuel da Costa, João Fernandes, Diogo Sigeu e Fernando Soares Homem.


Testemunho esclarecedor dos interesses intelectuais da Casa de Bragança encontrámo-lo no inventário da livraria do duque D. Teodósio (+1563), verdadeiro mecenas das artes e das letras ? que chega a acalentar o propósito de fundar uma Universidade no Mosteiro de Santo Agostinho de Vila Viçosa ? que reúne cerca de 1596 espécies bibliográficas, sem contar com livros litúrgicos. Sem dúvida a maior biblioteca portuguesa no séc. XVI, depois da biblioteca 'romana' de Aquiles Estaco.

 

Autor: André Peres (atrib.)

Ano: c. 1581-1595

Material: Óleo sobre cobre

Medidas: 21,5 X 15 cm


Voltar
 











Câmara Municipal de Santarém

procurar no site
     
Mudar fundo Fundo 1 Fundo 2

Quer receber as nossas notícias?
Registe-se

01.10 | 31.12 de 2018
Exposição Bianual da Coleção de Arte Contemporânea 'Manuela de Azevedo'

Nenhum registo encontrado.